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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Desafio Poesia & Companhia

O desafio é escreveres um poema breve que inclua pelo menos três das seguintes palavras:
flor, palavra, pedra, rio, sandália, sol.
Poderás juntar outras palavras à tua escolha, desde que não sejam substantivos.
Coloca aqui nos comentários quantos textos quiseres ou envia-os por e-mail. Os escolhidos serão lidos na próxima À Conversa.

***

A palavra é
como uma pedra
atirada ao rio

António Baeta

***

tua sandália tem uma pedra
tua flor um rio de palavras
seca a conversa ao sol

Ana Carvalhosa

***

Dentro de cada pedra
há sempre um sol
Dentro de cada flor
Há sempre um rio
Dentro de cada palavra
Apenas palavras

De sol a sol, rio do rio, disse a flor à pedra, que logo se riu. De referir que dou a minha palavra que nem a flor nem a pedra usavam sandálias, já quanto ao rio não garanto.

Ri o sol no rio
Ri o rio ao sol
Ri a flor ri a pedra
Riem todas as palavras


todos os rios
(de flores de pedras de sóis de sandálias)
são rios de palavras

 Luís Ene

***

uma flor é uma palavra e uma palavra é uma pedra e uma pedra é um rio e um rio é uma sandália e uma sandália é o sol.

Rogério Cão

***

A palavra Sol: era uma vez uma palavra que caiu no rio. A sandália, a pedra e a flor continuaram a andar, a pedrar e a florir. Mas o sol secou o rio para salvar a palavra. Desde então ela só fala do sol.

Esculpir a palavra: pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, pedra, flor.

Há quem ponha sempre flor de sol na palavra, mas eu também gosto dela sem sol.

Já tentei bater no sol com a minha sandália, já lhe joguei uma pedra, só de ouvir a palavra sol apetece-me afogá-lo no rio.

Marco Mackaaij

***

Não sei o que me será mais útil: se sandálias se palavras para atravessar o rio. Dependerá do rio.

Sara Monteiro

***

Um poema breve

É como uma flor numa sandália. Escreve-se na pedra de um rio, ao sol. Basta-lhe uma palavra.

Fernando Cabrita

***

Mesmo debaixo de um sol assim de pedra viu nascer a esplendente flor.
Ao atravessar o rio transparente perdeu a sandália ao deparar-se com uma palavra eterna.

Pedro Jubilot

***

Rio de pedras e flores,
umas vermelhas, verdes, azuladas,
outras hexagonais, quadradas,
de amarelo iluminadas,
pela palavra sol.

..de pedra em pedra,
de flor em flor,
gerou-se a palavra.

Marco Mangas

***

prefiro o sol, o rio, a pedra, a flor, até a sandália, à palavra.


Pedro Afonso

***

a flor ao sol
a pedra no rio
a palavra sem sandália

Paulo Moreira

***

a palavra é um rio de pedra
a palavra é uma pedra no rio
a palavra é um sol em flor
a palavra é uma flor ao sol

à palavra não basta ser apenas palavra


Não sou pedra, nem rio, nem flor, nem sol, disse a palavra. Chamam-me sandália, desde que ando descalça.


A pedra sorriu quando o sol se banhou no rio. A flor adormeceu e sonhou que nunca mais diria uma palavra.


— Juro! O sol tropeçou na sandália, caiu ao rio e fez-se flor. Dou-te a minha palavra.
— Que grande pedra!

Fernando Gomes

***

Microficção

Uma palavra-pedra ardia ao sol, quando foi atacada por uma sandália-rio que a chutou. Morreu afogada!

Lídia Borges / Olívia Marques

***

Corre sandália
A tua flor levada no rio

Luís Nunes Alberto

***


Da palavra fazes pedra - magoas-me.
Da palavra fazes flor - não acredito.
Deixa lá a palavra e faz de mim rio.

Gisela Estrada

***


Tanto a palavra como a pedra se afogam no rio, pesam, centralmente.
Molha-se a sandália ao sol para se esquecer, ilude-se acima de se afogar, centralmente.
Central é a flor, única, singular, que não existiria sem nenhum e sem palavra que a descrevesse e sem sandália para a pisar.

Martim Santos

***

Cheiro que se molha
e traz do rio
a flor de sol
com folha de sal
num lava - pedra
que devolve à palavra
deixa o coração
sujo de criança
Dina Isabel Dias

***

Caminhava pelo rio
Com uma pedra na mão e uma flor na cabeça
Não fosse a sandália e o incandescente sol

Não tinha morrido sem dizer palavra.


Paula Romão

***

Por amor arrancou o seu coração, com ele, esculpiu 
pequenas pétalas de pedra numa flor sem nome.
Cravou-a no peito e mergulhou num rio sem fundo.

Paulo Ramos 


***

Cheiro que se molha 
e traz do rio 
a flor de sol 
com folha de sal 
num lava - pedra
que devolve à palavra
deixa o coração
sujo de criança


Dina Isabel Dias

***

Desliza marulhando
Pelo rio barrento e sujo,
Na pedra nasce a flor.


Natália Vale

***

Uma palavra

Escondida, a flor ensaiava uma palavra. Empedernida, a pedra mastigava uma palavra. Lânguido, o rio marulhava uma palavra. Despudorada, a sandália esmagava uma palavra. Omnipotente, o Sol cozinhava uma palavra.

A palavra, essa, ignorava tudo e todos e descrevia-se a ela própria.

(La Donna Ignobile) 


Genoveva




quinta-feira, 24 de abril de 2014

2 Poetas gregos

2 Poemas lidos por Adriana Nogueira no Festival Poesia & Companhia


- de Mimnermo, um poeta do séc. VII a.C., em tradução de Frederico Lourenço (publicado pela Cotovia, intitulado Poesia Grega, de Álcman a Teócrito):

(Elogio do Prazer)

O que é a vida? O que é prazer, sem a dourada Afrodite?
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

- de Anacreonte, poeta do séc. VI a.C., li este, traduzido por mim e ainda não publicado:

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito
tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,
receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Outro


Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio: 


    Pilar da ponte de tédio 


    Que vai de mim para o Outro. 



Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

domingo, 20 de abril de 2014

LerAlto

[escritos/lidos no LerAlto]

Há muito mais que um ser
na voz
um devir vibrante
frémito fulgurante que embate nas paredes
e transforma
pelo ar
dúctil canal que intercepta e continua
um será
quando lemos alto

Pedro Afonso


LerAlto

Ler de alto para baixo
Ler lentamente ou bem depressa
Ler para cativar a atenção dos ouvintes ou sussurrar bem baixinho para não se comprometer
Ler com ternura a poesia de uma criança
Ler a língua que se sabe ou a língua que não sabe e o nariz que ajuda
Ler os cheiros e parar para degustar a fruta fresca desta Primavera
Ler recados pela manhã estrategicamente colocados ao lado da cafeteira de café
Ler lábios e parar de ler porque o beijo se embrulhou consoante as vogais
Ler linhas na palma da mão que dá prazer quando toca o sexo
Ler a pauta de música onde figuras cantam ritmos e melodias que querem voar outra vez, imitando a sinfonia de um bando de aves que poisa agora em meus ombros
Ler os teus lagos de lágrimas onde mergulho e respiro embriagado o frémito do desejo
Ler a teoria e dançar a prática
Ler a palavra que falta
Ler a idade numa escarpa oblíqua
Ler a sentença de uma morte anunciada tatuada nas rugas de um Poema que agora Nasceu

Marco Ferraz


Ler Alto

Gostava de ler, e lia, mas lia alto, tão alto que ninguém entendia o que lia. E quando lhe pediam para ler mais baixo, ele lia, mas lia tão baixo que ninguém o ouvia. Nunca deixou de ler, mas nunca alguém percebeu o que dizia. Também nunca perceberam outra coisa, nunca perceberam que ele era analfabeto.

Moral da história: Para fazer algo basta fazê-lo, não é preciso saber como.


Luís Ene

domingo, 13 de abril de 2014

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa

sexta-feira, 11 de abril de 2014

sorri, se isso te faz feliz

sorri porque o mundo enlouqueceu e tu fazes parte dessa demência; sorri porque acreditas no amanhã e participas da ilusão diária que os telejornais te vendem; sorri porque autorizas narrativas sobre yields de obrigações do tesouro e limiares de 4,5%, como se soubesses o que isso significa; sorri porque admites que políticos de boca cheia te informem de países que se tornaram muito melhores quando a miséria é mais que evidente; sorri porque nem sabes nem te interessas pelo facto de hospitais públicos deixarem de fazer exames de rastreio porque há que obedecer ao cumprimento de metas orçamentais; sorri porque enquanto descansadamente bebes o teu café, há uma mulher que mata a sua própria filha, depois de a mergulhar duas vezes de cabeça num balde, seguindo instruções dadas pelo marido; sorri porque te reitero que o mundo enlouqueceu e que tu fazes parte dessa demência; sorri porque não acreditas na loucura deste poema e estás plenamente convicto que a poesia só pode cheirar a flores, a primavera e ao azul do céu; sorri, se isso te faz feliz; sorri, sorri muito, sorri sempre

Miguel Godinho

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Mais que a morte

Com uma sede maior que a própria sede,
Um gesto maior que as mãos,
Uns pés maiores que os passos,
Um ruído maior que o infinito,
Ela vem dizer-me...

Com um medo maior que o medo,
Um segredo maior que as palavras,
Um amor maior que os corpos,
Uma sina maior que a história do universo,
Ela vem dizer-me...

Com uma ferida maior que o sangue que escorre,
Uma câmara que capta mais que a imagem,
Uns versos que dizem mais que a poesia,
Um frio que me gela mais que o gelo,
Ela vem dizer-me:

Morre, meu amor.
Morre mais que a morte.

Tiago Nené

terça-feira, 8 de abril de 2014

mulheres

as mulheres tiram seus panos crus
na hora incerta de uma canção
com os seus passos de fogo nus
no núcleo do grunhido vivo

na hora incerta de uma canção

as mulheres amam as esculturas dos anjos
o palato dos mesmos
bocejando nos seus umbigos e nas suas coxas


as mulheres amam os seus umbigos

as mulheres amam-se nas sombras dos pecadores
amam as praças carregadas de pássaros quentes
amam o vento nas penas dos pássaros quentes

as mulheres amam a vertigem do vento
as mulheres amam a versatilidade do vento
e a boca dos cavalos

Rogério Cão

domingo, 6 de abril de 2014

poema a sul e branco

aqui a sul
saímos da casca dos dias invernengos
caracóis cautelosos
de corpos moles e lentos
depois das chuvas já terem secado
na calidez telúrica do tempo

aqui a sul
a cor do céu espelhada no mar
confunde-se com
a cor do mar espalhada pelo céu
e a salmoura entranha-se nas palavras
e as bocas são banhadas por uma luz
olímpica de sol de verão

as paredes das casas
desmaiam-se de amores por dentro
de suores salgados queimando corpos morenos
gotas de desejo percorrendo nus flancos
desenhando um poema a sul e branco

Alexandre Homem Dual

Noite por ti despida

Adulta é a noite onde cresce 
o teu corpo azul. A claridade 
que se dá em troca dos meus ombros 
cansados. Reflexos 
                                  coloridos. Amei 
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas 
orvalhadas. Não eras tu porém 
o fim dessa estrada 
sem fim. Canto apenas (enquanto os álamos 
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite 
por ti despida. Lume e perfume 
do sol. Íntimo rumor do mundo. 

Casimiro de Brito

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Cai a chuva no portal

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.

Lídia Jorge

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Melancolia

Oh doce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que flutua
De engano em desengano!
   Oh criação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dor que nos oprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
Dum sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
   Oh luz orfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
   Fita-te a gente, estuda,
(Sem medo que se iluda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A órbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
   As vítimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as dessas feras brutas...
E as lástimas, as lutas
Da orfã e do pobre!

João de Deus

terça-feira, 1 de abril de 2014

Agora que morreste

Agora que morreste Mãe
e só em mim te tenho
sou mais que o meu tamanho
porque sou tu também

Tuas mãos afagam minhas mãos
de quem são estes gestos esta pele?
Nunca me deste irmãos
só contigo reparto o meu farnel

de quotidianos fardos e alegrias
breves e desta brasa em chaga
que é tua ausência nos meus dias
órfãos mas sempre ao colo desta mágoa

de não te ter de te ter sido esquiva
de não te ter nunca aberto as portas
do meu ser de nunca te ter dado vivas
o que hoje já só são carícias mortas

Teresa Rita Lopes

segunda-feira, 31 de março de 2014

Manuel Alegre :: Estou triste / Dito por Mário Viegas (+lista de reprodu...


Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

domingo, 30 de março de 2014

Mário Viegas diz Jorge de Sena "*Carta a meus filhos..." do disco "Prete...


Lembrança da Ria de Faro

Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caiada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia

Gastão Cruz

sábado, 29 de março de 2014

Mais um poema

Verões virão E verões virão ainda de pés descalços de apanhar pedras na praia de cheirar a cor do mar de usar tão curta a saia. E verões virão ainda de subir rochas usar no pé uma sandália cantar canções fazer rodar a saia. E virão verões assim ainda. E verões virão ainda de nadar umas braçadas beber taças de mojitos comer camarão picante deixar cair a saia. E verões virão em que o mar se aquietará e nem pés nus nem nas sandálias. A conta gotas onde é que estou para onde fui o que é que eu fiz às minhas saias.

Sara Monteiro


sexta-feira, 28 de março de 2014

Luar de Agosto

Luar de Agosto, o céu em lua cheia!
Na mole intumescência o mar cantando,
Parece estar uma oração rezando...
E, por cenário, o fundo duma aldeia...

Insisto: Algarve em festa; bruxuleia
A luz da lua, tudo prateando
Num milagre de luz, que vai mostrando
Festa que lembra uma Panateneia...

Há saudades de amor e de verbenas...
Trilam as rãs, desfolham-se açucenas,
À luz mortiça do luar dorido...

E é Faro a Sulamitis descansada
No regaço da noite, desmaiada,
Sem os astros a terem pressentido!

Vítor Castella