sexta-feira, 30 de maio de 2014

QUE DIZEM OS POETAS ALGARVIOS E ANDALUZES DE AGORA?

QUE DIZEM OS POETAS ALGARVIOS E ANDALUZES DE AGORA? – 4
Fernando Cabrita

HABITACION COM ISLAS - Manuel Moya

Manuel Moya é, e digo-o sem grande receio de me ver desmentido, não só um dos maiores poetas da Andaluzia, mas um dos grandes poetas contemporâneos da Espanha. E não o digo pelo número e importância dos prémios que a sua obra tem recolhido ao longo de anos. Digo-o pelo sentido intrínseco da poesia que rescende do seu texto, e pela marcha evolutiva que essa poesia vem ganhando, livro a livro, enrijecendo-se, avolumando-se, crescendo em tonalidade e, contraditoriamente, em complexidade e simplicidade.
Na verdade, na poesia espanhola actual a obra de Moya avulta. E maior significado tem isso porquanto a mesma se produz, distante dos luzeiros do vedetismo mediático, na pacata Fuenteheridos, pequena e belíssima povoação da Sierra de Aracena, entre castanheiros altos e sombras ridentes. Quando ali passo -- não muito, com pena o reconheço--, visito-o. E encontro-o regularmente ocupado na leitura de um novo poeta, na tradução de autores portugueses, na véspera de uma deslocação para uma palestra, um recital, uma apresentação, ou para ir receber mais um prémio.
Sei que não é bom método de crítica que, antes de falar do livro de que me ocupo, abra encómios à demais obra. Mas não resisto a referir alguns dos Prémios Literários de Moya. Porque isso dá-nos também a dimensão do escritor e do poeta. Atente-se: Premio Gabriel Celaya, em 1993; Premio Ciudad de Córdoba, em 1997; Premio Ciudad de las Palmas, em 2000; Premio Leonor de Poesía, em 2001; Premio Fray Luis de León, em 2001 e de novo em 2005; Premio Faroni de Microcuento, em 2006; Premio Vicente Presa, em 2007; Premio Salvador Rueda, em 2008; Prémio de Poesía Tomás Morales, em 2010, atribuído na Gran Canaria; Premio Fernando Quiñones de Novela, em 2010 --este, aliás, atribuído ao seu romance Cenizas de Abril, no título original, mas romance e trama totalmente portugueses, percorrendo os anos difíceis da ditadura portuguesa até ao 25 de Abril de 1974, e prolongando-se para lá dele. Está em Portugal editado pela Sextante, sob o título Cinzas de Abril. E como se tudo isso não fosse já suficiente para se perceber estarmos na presença de um poeta maior, eis que em 2013 lhe é atribuído o Premio Iberoamericano de Poesía Hermanos Machado.  
Habitacion con Islas é uma antologia de poemas de Moya. Reúne poemas de 1984 a 1988; e até 2000 na edição portuguesa, a mais tardia. Daí talvez que a minha escolha, entre tantos outros livros seus, tenha recaído neste, que representa um percurso por aquilo que é o mais marcante e sintomático do macrotexto poético de Manuel Moya: a interrogação sobre a marcha e a luta do ser humano, a sua condição, o seu lugar no mundo. A poética de Moya é uma constante reflexão. A reflexão de um homem que maduramente se pensa, imperturbável na sua ligação à terra, reencontrando-se nos outros que se lhe cruzam, nos que antes dele foram, percebendo-se ao mesmo tempo distinto e igual, renovado ou ultrapassado por si próprio a cada estado de consciência, cavando dentro de si os estranhos túneis que o conduzem de si mesmo a si mesmo, e saindo do outro lado, todavia sempre novo, sempre um outro, e sempre igual ao que fora antes. Este soy/ quien ahora se empeña en habitarme/ quien inútilmente me abraza desde el sueño, confessa-se no Autorretratos (pág. 13). Este soy/ testigo inseparable de ese otro que coincide conmigo en la vigilia. O canto é, assim, claramente tributário de Rimbaud (que aliás figura, el pobre Arturo, no poema da pág.29); mas, ainda que tributário, é-o em profunda originalidade, como se em cada poema ouvíssemos respirar, em haustos autónomos, ambas as identidades, uma e outra, dois seres que habitam o homem e o poeta e lhe trazem a estranheza em que se mede. Sintomático, em Memoria de Ultratumba: En otros fui, ganado a sus facciones/trazándome en sus máscaras.
E na edição portuguesa, aumentada porque recolhendo poesias de anos posteriores, deparamos (pág. 24) com Os Outros, poema que não resisto a aqui transcrever por tão ilustrativo daquilo que digo acima: Ás vezes chega e fica a viver nas minhas camisas/ e brinca com os meus gatos e calça as minhas sandálias,/ ocupa a minha parte nesta cama/ e passeia como um pai ante os meus filhos./ Ás vezes surpreendo-a seguindo-me em meus passos./ Seus olhos povoam-me as pupilas,/ sua voz em nada se distingue da minha/ e até nas minhas mãos leio as linhas das suas./ Ás vezes sento-me a confessar diante do espelho/ as suas torpezas. /Indecisa, néscia, talvez cega/ foge de mim e logo volta. Não a chamo:/como chamá-la, se não atende à voz com que a nomeio,/ se ao fim desmente os meus versos, as minhas palavras/ e pronta se vai, desdenhosa, infiel, tão de repente.
Ei-la pois, em misteriosa e bela forma poética, essa outra identidade, essa outra personagem, a outra pele. Há aqui uma desidentificação pessoana, em que o poeta, ele próprio e como um observador de si mesmo, reconhece a outra criatura que em si por vezes e de surpresa habita. Uma despersonalização consciente, como um sonho dentro de um sonho, no melhor sentido de Borges. 
Esta referência a Pessoa não espanta. Manuel Moya é um cultor da língua e da literatura portuguesa. Pessoa é só um dos vários autores que Moya traduziu para castelhano e que estudou e comentou. Pessoa está ali, na sua obra, como aliás está o seu contrário. Já o disse numa apresentação de um livro de Moya. O seu poema Que claro ser el de esta piedra (pág. 8, ed. castelhana), integra-se com toda a harmonia no conjunto de versos de Alberto Caeiro; e nos anteriores de João Lúcio, versos quase polémica a anos de distância, sobre o que sentem as coisas. Pessoa/Caeiro terá conhecido a obra de Lúcio através de Francisco Fernandes Lopes (desenvolvo esse tema num texto publicado nas Teses do Congresso Internacional sobre Álvaro de Campos); e poetiza no sentido oposto, resumindo que as coisas não sentem; se sentissem seriam seres, não seriam coisas. Moya, nesta poema de pág. 8, aproxima-se de João Lúcio. No claro ser de la piedra ele sente vida. Quando paso junto a ella,/ sin embargo, escucho sus latidos./ Dentro se muéve un perro/ un nardo, la vulva, el angél. Simplicidade e complexidade. Poderosas imagens, na maior concisão do texto.
Mas o sentido maior da sua poesia é essa procura do sentido da existência do homem no mundo. A sua condição na relação com os outros, com a terra que lavra e que o lavra a ele, com a luta diária pelo respeito que lhe é devido, pelo seu trabalho, pelo seu pão quotidiano. Leia-se este pão de cada dia sem sentido religioso. Nada de religioso encontro aqui, note-se. Mas há em tudo um apelo forte à dignidade, à inteireza de cada criatura, ao reconhecimento da divindade humana ínsita em cada um de nós. Por todos, o poema Salario (pág. 43): A cada hombre su luna e su salario/ su tanto de sal, su pobre mano / abrasada e hueca. Yo fui con eses hombres y como uno de ellos/ he vuelto a casa con la luna en los ojos.
Leia-se de seguida o poema Campo de Níjar (pág.11) – e aí está o fecho do anel, o círculo a completar-se. O homem ante a visão da terra. Essa visão de que de novo virá, de um renascimento sem pressa. Homem e terra, o homem a cuyo pie las horas, sin urgencia/ ciernen la arena y la semiente/ que más tarde esparcirán su luz por esos campos. Mas este homem que Moya canta é o homem real, o homem que vive as venturas e os anseios da vida, mas também o homem ferido pela maldade dos seus iguais, pela crueldade, pelo tempo e pelas vicissitudes. A efémera condição humana aparece-nos inteira em Visita a Pompeya (pág. 40), belo e curto poema que encerra toda essa fragilidade da nossa condição. Ou ainda na pungente meditação em Silves, sobre o rio, na companhia da sua filha (pág.37).
Como não apelar então à dignidade de cada homem, ao respeito pelo seu labor e pelo seu trabalho, encarando-se, a cada passo, a efemeridade que o marca? Como não denunciar o medo que se apodera dos homens, das sociedades, medo incutido, decerto, retirando-lhes a individualidade, o seu próprio conceito, a sua liberdade, a sua divindade de homens sólidos, livres e inteiros? Esse é o grande sentido da poesia que nesta antologia se recolhe – e que se condensa, de forma exímia, em Cuanto Diste, poema da pág.26, e em Ya Ves, na pág.78 da ed. Portuguesa.
E eis que o poeta se revê de novo a si mesmo, nesse ofício de cavar una trinchera de versos contra el miedo. Refiro-me ao poema Com Tudo o que Perdeu, que surge na edição portuguesa a pág.59. Com tudo o que perdeu/ com tudo o que espera debaixo da terra/ com o fio de tinta/ que tinge o mar e é um sudário/ Em Gádara remota/ no verde Fuenteheridos/ um homem cava uma trincheira de versos contra o medo.
Memórias de Meleagro, memórias mais recentes de um tempo de fogo e cinza que Fuenteheridos e os seus arredores viveram sob o franquismo impenitente e sinistro. Nestes versos contra o medo, ecoa assim toda uma voz ainda, voz múltipla e ancestral, a da Geração de 27, a de Jorge Guillén em Fuera del Mundo, ou a de Alberti em Lo que dejé por ti; e sombras luminosas de Cernuda, e de Aleixandre, e esse Miliciano Morto que cantou Garfias.
Moya reúne em si, como muito legítimo herdeiro, essa corrente imensa da grande poesia espanhola. Habitacion con Islas é, seguramente, um caso sério da poesia espanhola; e , por maioria de razão, da poesia andaluza. E é também uma homenagem a Portugal, que Moya, como homem da raia, nunca esquece. Recordo sempre uma sua frase, numa apresentação: o meu encanto por Portugal vem de há muito. Sou um homem que vive na fronteira. E sei que quando chove no meu pueblo, essa chuva é chuva portuguesa.
E assim, na raia, vai cavando a sua trincheira de versos contra o medo; e vai continuando a pedir para cada homem, que aterido e débil va en pos de su salario, que mantenha em si su luna e su prodígio.
O livro está editado em 3 países e idiomas: castelhano (La Voz de Huelva, 1999), francês (L’Harmattan, 2007), e português (Livro do Dia, 2008, com excelente tradução do malogrado Rui Costa), sendo as edições portuguesa e francesa bilingues, ao conterem o original castelhano.





QUE DIZEM OS POETAS ALGARVIOS E ANDALUZES DE AGORA? – 3
Fernando Cabrita

ÉPICA MENOR – António José Ventura

A poesia de António José Ventura, neste como em outros livros extremamente gráfica, é igualmente de grande contenção. Ventura trabalha a língua na sua vertente poética mais pura, fazendo de cada poema um quase retrato de realidades ou memórias; mas também, ao mesmo tempo, apresentando-os num texto claro, conciso, curto no seu melhor sentido, profundo e interrogador. O poema convoca-nos para a visão das coisas que por vezes nos passam quase sem as apercebermos: uma rua, um jardim, o voo de uma ave, o sino que toca pelas seis da tarde, os ecos entre as folhagens. Ventura escreve como quem fotografa – e as palavras são invariavelmente as mais justas e as mais adequadas.
ÉPICA MENOR (Gente Singular editora, 2009, em edição enobrecida por dois desenhos de António Costa Pinheiro) não é o seu último livro (o último, aliás, é uma comemoração a dois – eu e ele -- dos 25 anos passados sobre a atribuição do Prémio Emiliano da Costa à nossa Visões de Marim). Mas aquilo que é recorrente na sua poesia está lá, como nas demais obras: a memória em visita, a peregrinação por lugares reais ou literários, cada qual mais simbólico, a evocação da juventude nas paisagens esvaecidas. E também as referências do cinéfilo e literato culto que António Ventura é; e sempre a busca dum perfeccionismo, que se por vezes parece surgir entre as árvores de um jardim, uma alameda, ou uma rua velha, nunca todavia se alcança.
“Nunca construiremos /a moradia perfeita”, confessava já Ventura no seu A Cidade das Palavras, de 1994. E essa procura da perfeição continua nesta Épica Menor. Pelo sonho, pela palavra. “Caminhamos em direcção à noite./A substância dos sonhos é-nos imprescindível/ para que o nosso corpo não morra.”. A leitura revela-nos uma poética de calma e apaziguamento, quase influtuante, em peregrinação a lugares, a anos dissipados, a recordações, nessa busca contínua da palavra e/ou da cidade perfeitas. A perfeição procura-a Ventura, assim, nas palavras, em todas as palavras, e na cidade. E também nas pessoas (“sempre a urbe e o seu passado/ sempre as pessoas e as coisas”).
Mas a cidade é, por muito que a queiramos ver localizada em Olhão, ou à beira mar de qualquer porto, uma cidade ideal, onde há reminiscências da Grécia clássica e memórias de jardins românticos do Norte. Trata-se da cidade que não é, mas poderia ser ou ter sido. A cidade edificanda: “as palavras são para ser usadas na construção da cidade”, assim abre o Poema Primeiro. Mas também, sabe-o Ventura, “este é um tempo de desconstrução,/ estranhos sortilégios ocultam o presente./ Temos o que não queremos/ e queremos o que não temos” (pág.9). E com palavras, sempre com palavras, vai tecendo essa estranha novela da cidade indefesa, a cidade devassada por todos os desdéns, todas as ruínas, todas as apagadas memórias.
Ventura reconhece-o e declara-o. “Os habitantes ignoravam a memória” (pág.10), mesmo e quando há uma “paisagem atlântica a seguir a cidade na voluta do poema” (pág.16, em que o poema convoca a Galiza, e onde ressoam, na minha leitura e repetidamente, as chuvas de Michel del Castillo, e a morriña galega sobre os prados húmidos). Ventura, com palavras exactas, certas, adossadas ao texto no preciso lugar de cada poema, reconstrói e reconstrói e reconstrói a cidade, sucessivamente, empenhadamente, ao mesmo tempo que a contempla. Contempla-a com um olhar de antiga saudade, mas também de pena pelo futuro. No seu intertexto está reconhecido que as palavras, por exactas que sejam, não têm o condão de fazer ressurgir, do tempo, a cidade perfeita, a cidade que foi outrora e pode ser no porvir. Urbicanda, como um sonho, ou um Desejado que se revele por entre os nevoeiros imemoriais.
Mas – e ai do cidadão que o constata!; mas que vitória para o poeta que o entende (pois é essa a alma da sua poesia e o contraste e a contradição em que ela exulta)! -- a cidade onde Ventura se move, na sua realidade física, não é a cidade do seu ideal poético. É, todavia, uma cidade sem palavras. Ele sabe-o:
A cidade sem defesa
e ausente de palavras
movimenta-se como um rio 
por onde não correm as águas.

Por isso a descrença do poeta. Por isso a sua Épica se lhe figure Menor. Não menor por que menos poética; mas menor porque em vão se esforça, ante o desinteresse e o alheamento. A cidade é de breves casas/ transformadas em casernas/ abrigam corpos de homens/ cheios de cicatrizes várias (pág. 32). Sem se aperceber, sem cuidar do que é poético, do que de nobre e alto e luminoso em si encerra, a cidade derrui-se a si mesma. Destrói as suas memórias, os seus recantos, os seus segredos. O que lhe era íntimo perde-se. O que a definia esvai-se. Ficam as efemeridades, os ruídos, as vagas espumas dos dias. É Roma invadida pelos bárbaros, que desconhecem e não curam da palavra. Da palavra antiga, patrimonial. Ignoram-na. Não a percebem. Menosprezam-na. Ventura há-de dizê-lo mais claramente num poema posterior, no livro 40 Poemas, de 2012: passam autarcas e secretários de estado/raparigas com vestidos de noite/ adolescentes de t-shirt/ bêbados, loucos, suicidas/ prostitutas, seres de sexo indefinido/ alarves, rústicos e proxenetas/ vampiros da manhã que se aproxima.

Ventura lê a realidade e transforma-a concisamente.Como dele já disse Maria Alzira Seixo, numa crítica de 1996, “ o autor capta muito bem atmosferas físicas e intensidades caracteriais; e penso ainda no estudante de Literatura e na sua aprendizagem dos processos de descrição em poesia, da selecção de materiais e da relação sujeito/objecto, ao ler poemas como este, “Uma Rua de Olhão”:
Uma mulher espreitando num postigo;
um carro velho abandonado
um cão vadio na esquina,
uma linha de sombra
casas, açoteias e mirantes, 
calor e estagnação 
deste Sul luminoso e inóspito. (de A Cidade Das Palavras). 

Na verdade, assim é. Ventura capta estes golpes de realidade com o mais fino bisturi poético. Há aqui alguma coisa de Cesário Verde, também a lançar ao papel os seus alexandrinos exactos; qualquer coisa de cinematográfico na escolha dos planos; qualquer coisa de mole e nostálgico, que poderia ser Macondo a horas de calor. E na Épica Menor tudo volta a lá estar. Poemas que são quadros, poemas que são pequenos nacos de sonho, poemas que são fotografias redivivas. E pessoas. E saudades. E as palavras. Repito-o, as exactas e as necessárias. Não há gordura entre as imagens. Como matemático, Ventura sabe-o claramente: só o indispensável figura. O resto seria maculatório, por desnecessário.  
Leia-se um dos momentos altos deste livro: Memória de um Verão (pág. 33). E comprove-se esse rigoroso exercício do uso da palavra. Ou todo o capítulo dedicado ao Palácio de Estoi, que, sem o ser, é uma visita guiada à alma da casa. Uma visita sem concessões, sem folclore, sem outra coisa que não a mais pura das poesias.
E ao longo da poética de Ventura, por toda esta Épica Menor, não obstante a linguagem depurada e limpa, as imagens são poderosas. E correm nelas as vozes de Egito Gonçalves, de José Gomes Ferreira, de Eugénio de Andrade; mas também as de Paul Célan, de Holderlinn e de Júdice. “Sou um arqueiro de um exército em fuga./Passei fome e frio nas estantes da biblioteca/ ferido pelas palavras refugiei-me no litoral”(pág. 21). Como não recordar Mathias Fergusson e o seu regimento? E quando nos descreve o seu Jardim, os capitéis das colunas, a sombra ausente, os carneiros que pastam, a aura solene das palmeiras, as delícias da água; como não evocaremos o poema “A Música” de Eugénio de Andrade? “Os álamos/ Essa música/ de matutina cal./ Doces vogais/ de sombra e água/ num verão de fulvos/ lentos animais.” 
Ventura contempla e lê a paisagem; e escreve-a. E evoca a cada escrita essa grande corrente da poesia que nele se recolhe, de tantas leituras que a sua sensibilidade apurou. Todo o poeta se move nesta rede intertextual, onde bebe as melhores influências. E só os grandes criadores conseguem bebê-las e delas fruir, ressuscitando-as nos melhores poemas que lavram. 
O livro de Ventura, como dele disse Martim de Sousa Gouveia, tem ainda, nas suas viagens aos lugares e às memórias, “uma profunda pregnância erótica tonalizada disforicamente por um certo desalentamento”. 
Mas preside sempre, nesta poesia, ainda que por si reconheça que “em vão se esforçam os obreiros / as obras já estão feitas e nenhum decreto construirá pirâmides”, preside nela sempre uma clara esperança que vem da luz do lugar em que se habita e se sonha: “Habitamos o lado mais claro do sol” (pág.31); e “a luz que entra pelas janelas/ revela os segredos dos deuses” (pág. 27).
Poesia luminosa, esta.





QUE DIZEM OS POETAS ALGARVIOS E ANDALUZES DE AGORA? - 2
Fernando Cabrita

SOLO MEMORIA DE LA VIDA– Emilio Duran

Não sendo propriamente um poeta novo, Emilio Duran é, incontestavelmente, um poeta andaluz deste século e deste tempo. Sevilhano, com o seu primeiro livro -- Paralelo 40 -- editado em 1975 (a que se seguirão outros 12 títulos durante as décadas de 80 e 90), Emilio Duran é o exemplo claro do poeta que projecta, a cada verso, a sua poesia para o futuro. Os seus versos são lúcidos, claros, entranháveis, e mais que tudo, intemporais. Por isso mantem-se rigorosamente actual. Dele e da sua obra disse Antonio Enrique, outro poeta andaluz, granadino, que “Emilio Duran posee una virtud poética esencial: el entusiasmo, entendiendo por tal el amor por todas las cosas. Estamos ante un poeta cronológicamente atípico, un poeta-bisagra, ya que si físicamente pertenece a la década de los sesenta por fecha de nacimiento, literariamente es de la siguiente”.
E eu acrescentaria, a Enrique: Duran literariamente é da geração seguinte; mas sempre e sempre da seguinte, seja qual a que venha. A escrita de Duran é de todos os tempos. Desde logo ágil, fluente; mas rigorosa, séria, fecunda. Às vezes triste, como a vida. Às vezes revolvendo-se no fracasso da existência. Mas também brindando na exultação dos pequenos triunfos, dos amores, das ilusões por vir. E por entre a tristeza e a exultação, nela passa toda a ironia, jogada de cima, como se de algum olimpo, sobre as existências obscuras e tristes. 
Depois Emilio Duran é um poeta sumamente atento. Poesia que é olhar, mas olhar crítico. Nada escapa à sua observação.
Observa. Recolhe. Yo me dedicaba al placer sin nombre de almacenar recuerdos, confessa no poema Desfile. Depois a memória, conservando e enobrecendo o que ficou, transmite essa filtragem de coisas, momentos, pessoas que já não estão, idades que se extinguiram, ternuras, desgostos. E o que resulta são poemas de fina factura. E no seio de tudo, alimentando o poema e alimentando-se dele, um necessário fio de fuga à normalidade, ao cinzento dos dias; um fio de fantasia nova, feita de novas palavras, de novos sentidos. Uma linha mestra de desvario e glória, esse pó das estrelas que penetra cada palavra da carga poética essencial.
O propósito vinha já anunciado, como um lema ou uma consigna para a vida por viver e a escrita por fazer, desde o primeiro momento, no Paralelo 40: “Metamos un injerto de locura /en el tronco gris do lo diário”, anunciava Duran já nesse distante 1975. E acrescentava:
Te regalo rosas rojas.
Igualmente podria regalarte dromedarios,
una foca poliglota o un abeto
fóssil del período cuaternario.
Essa ironia que é a flor da existência, está na obra; e está também no homem. Conheci Emílio Duram na década de 90, era ele um poeta já premiadíssimo e um escritor de primeira água. Recebera, pelos seus livros de poesia, nessa década de 90, prémios literários tão importantes como o Prémio Miguel Hernandez de Poesia (1991), Premio Ponte Zuazo, em 1992, o prestigiadíssimo Premio Leonor de Poesia, em 1994, -- que juntou ao Prémio de Novela Camilo José Cela, também de 94 --, e o Villa Peligros de Poesia, em 1996. Viria ainda a acumular outros prémios, já neste século. A primeira impressão que tive dele foi a de um educado cavalheiro, culto, despretensioso, amante da vida e senhor de uma suprema ironia, que transparecia a cada passo da sua fala. Traduziu particularmente para castelhano o meu Noites de Sevilha, que ia ali ser apresentado; e depois ele mesmo, com Juanjo Perales, fizeram a apresentação desse meu livro no 4 Gats dessa cidade, em 1999.
Dois anos depois fiz questão de trazer a poesia de Emílio Duram ao Algarve. Traduzi alguns dos seus poemas, seleccionando-os de diferentes livros. Numa noite de festa reunimo-nos, amigos e admiradores de cá e de lá, em Olhão, a apreciar a poesia deste autor e a sua capacidade de nos fazer sorrir a cada pensamento grave.
Mesmo agora que a sua visão se deteriora, Emílio mantem essa poderosa força do bom humor, como uma corrente que o liga ao que de mais forte a vida tem. Em Novembro de 2012 fui assistir à apresentação, na Casa Del Libro de Sevilha, da antologia da sua poesia de 1974 a 2010. Com esse sentido gracioso que nos ensina que mesmo as coisas inelutáveis não devem deixar de nos fazer sorrir, Emilio titulou a antologia de Toque de Silencio. E explicou aos ouvintes: ele tinha alguma coisa de militar. E quando o toque de silêncio, no exército, se fazia ouvir, uma densa quietude tomava conta das coisas, e ficava só a memória do dia que passara. Assim fazia ele agora, porque achava que já lhe era penosos continuar a escrever. E deixava este Toque de Silêncio, a encerrar uma obra vasta. “Del mismo modo que el toque que silencia el campamento, cuando el poeta cree haber dicho lo que le agitaba las entrañas, debe sentir la obligación moral de callarse, a menos que tenga el lamentable y senil defecto de repetirse.” Toda uma lição para quem – e tantos são –, arrastando poesias que já foram jovens, hoje as trazem insistentemente, velhas e caducas, a encher escaparates e a diminuir-se no nosso critério.
Na antologia de 2012 estão poemas de todos os seus livros; e um Confiteor, em que o poeta declara, sem rebuço, que os seus poemas foram escritos em “estado de necessidade”; e que a maior parte são gritos de angústia, de amor ou de rebeldia. São-no, na verdade. Mas gritos de poderosa força estética, de intensa poesia. E, em todos, esse inevitável passar do tempo. A vida a escoar-se. As coisas que vivemos a irem-se por obscuras sendas, e delas quedar-se só memória.
Por isso, de entre todos, destaco este seu livro SOLO MEMORIA DE LA VIDA, também agraciado com o Prémio Ciudad del Guadaira em 1996. Ali há, perpassando tudo, a ressonância das lembranças antigas. Lede, por exemplo, o poema Antiguos Alumnos; mas sempre, sobre a memória, o decurso do tempo; e o sentido da perda. Olvidemonos./ Bebed – como hago yo – cada dia su vino./ Fuímos las victimas de un naufragio/ donde nadie se salvó (pág. 13)
Ou: derrotó el tiempo huertas e memorias/Ya no queda nada… (Arroyo de San Juan, pág. 24). Sintomático, sobre os demais: la muerte me recuerda/ su próxima visita./ Tan verde por el césped/ nos va dejando huellas de su paso:/ la derribada hoja,/ el anciano al sol/ esa paloma de quebradas alas,/ mi memoria de un tiempo/ que ya es ceniza… (La Muerte Pasea por El Parque, pág.52). 
Os poemas são em geral curtos, sólidos, crus mesmo, alguns. A concisão é notável; e Duran concilia-a com imagens fortes, surpreendentes, de grande efeito literário e significância poliédrica, à uma estranhas e belas: “hombre herido por el tiempo” (pág.9); “un edén de largas piernas sólidas coronadas por pubis como acantos” (pág. 11), “ me assomé a las hondas avenidas de tus ojos” (pág.19); ”la clara manzanilla de algunas esperanzas” (pág. 22); “tu amor se iba por los apuñalados cerros del ocaso”( (pág. 25); “por las calles, bebiéndome la luz y el aire “( pág.75).
O amor, a perda, a certeza da morte vindoura, o tempo a escorrer entre as mãos. Tudo está, soberbamente está, em alto plano, nesta poesia de Duran, de que este livro é apenas um exemplo. Mas igualmente ali está a raiva (ainda que suavizada pelas blandícias da ironia) que vem da certeza das desigualdades, da pobreza que já aí vinha, galopante, e que o poeta antecipava. E isso também, se tudo o resto já não bastasse, fazem de Durán um poeta novo, hodierno, intemporal.
“Duerme su miséria en la cabina de un cajero automático./ La VISA le outorga/ un préstamo de noches tíbias,/ antes que se congele/ su crédito de hombre” (Mendigo Durmiendo en La Cabina de un Cajero Automático”, pág.39).




QUE DIZEM OS POETAS ALGARVIOS E ANDALUZES DE AGORA?
Fernando Cabrita

ODES – João Bentes

Deixemo-nos de tretas. Não há bons nem maus poetas. Há poetas. E há, de entre eles, os que seguramente passarão altivamente sobre a espuma dos dias, marcando já, com novidade e rigor absolutos, um lugar no futuro. São os grandes poetas.
É o caso de João Bentes.
Não interessa que outras coisas escreveu antes. Não sei se outras coisas escreveu ou irá escrever depois. Mas basta-lhe ter escrito as ODES (Ed. 4águas, 2012) para que se imponha como uma das vozes poéticas mais marcantes deste início de século na nova poesia portuguesa, ao lado dessas outras também recentes vozes, e também intensíssimas, de Ana Marques Gastão, Golgona Anghel, Miguel Godinho, Vasco Gato, Jorge Reis Sá, José Carlos Barros, Margarida Vale de Gato ou Joana Serrado. É toda uma nova geração de poetas já afirmada ou a afirmar-se, a construir uma obra de modernidade e, muito mais do que isso, de intemporalidade.
João Bentes está, assim e com as ODES, neste lugar cimeiro da novíssima poesia portuguesa. Só a absoluta e escandalosa falta de crítica literária em Portugal (onde a crítica se substituiu pela palmadinha nas costas) faz com que obras e autores como estes estejam contudo quase que num limbo. Quem hoje escreve e pretende dar a conhecer a sua obra, sente contra si todo o peso dos interesses literários instalados. As editoras editam apenas o que sabem que já vende. Ou, pior do que isso, apenas os poemitos de banqueiros reformados, vedetas de TV ou gente do meio, afilhados e protegidos. As meninas que passam modelos, os arrivistas, os que mostram a cara na TV por interpostos padrinhos, os medíocres, em suma. Há quem diga que essa é uma poesia má. Volto a dizer que não reconheço boa ou má poesia. Reconheço poesia; e esse género de coisa publicada, à vista e por favor, não é poesia. Por favor!
A poesia que nos enobrece, como a de Bentes, vai todavia e felizmente, com denodo, com raiva quase, furando a custo seu lugar, em leituras, em divulgações entre amigos e leitores mais ou menos fiéis, em apresentações em associações e clubes, ou em recitais quase marginais. Corre nas redes sociais, mostra-se nos blogs. Quem pensa que este é o destino da mediocridade, engana-se. Este é o destino que tantas vezes a mediocridade congénita e reinante nos traça; o destino que os vaidosos e petulantes, sapos a incharem como bois, impõem a quem, sem sequer pensar nisso, lhes retira a luz falsa sob a qual se movem a dar-se ares de estrelas. Quem não é poeta do regime, quem não tem amigos a escrever nos jornais da especialidade, quem recusa o destino macrocéfalo de ter que se exilar em Lisboa para poder usufruir de alguma atenção, vê-se marginalizado, empurrado para o esquecimento, omitido. Mas nunca está marginalizado, nem esquecido, nem desconhecido quem produz uma poesia como a de Bentes. Quem produz estas ODES.
As ODES são, para lá de grande poesia, também um manifesto e grito de revolta contra esta situação de discriminação:
E foi preciso morrer-me o pai
Para regressar à seiva do meu ser
Afastar-me lentamente das coisas deste mundo
Até conseguir melhor forma de não querer
Com a frieza de me despojar de todos e de tudo
Para que apenas tenha o que sempre houve antes 
que é esta terra onde vivo e que também é minha
onde recuso a vossa estranha liberdade
levanto forte e alto o duro braço da poesia. (pág. 24)
Porque em boa verdade morremos todos, nesta estranha liberdade, na agonia de ver desprezados os melhores. “A televisão poupa o pensar” como diz Bentes; e nisso não estamos muito distantes do regime que havia antes, “quando aquela coisa dos cravos/ liberalizou o acesso ao ar condicionado”.
As ODES reflectem sobre a democracia que temos, em que “o estado zela pela higiene dos dias” e dos “grandes falos de betão levantados nas cidades”; e sobre a angústia, o sentido de perda e de desorientação desta geração sem futuro visível (e não, não é apenas um futuro económico…), desta prisão concentracionária em que os nossos dias se transformaram.
Mas a revolta das ODES tem em si o poder da ironia, ora cáustica, dura; ora leve, ligeira. E embora plural no título e plural na repartição dos poemas, as ODES são, penso-o, um só texto, uma única e poderosa canção de raiva e de esperança. Há em tudo uma unidade, uma hegemonia, uma solicitação de espírito única e singular, em que toda a dispersão vem cimentada na palavra intensissimamente poética. 
É um livro sem concessões à vulgaridade, nem ao facilitismo. Mesmo o que se consideraria palavrão solto, obscenidade que chocasse ainda todo o bom leitor politicamente correcto e liberal q.b, (e as ODES começam, de modo tão livre, proclamando que se fodam/ párias protocolos/ papagaios de sala/ gente muito aprendida/ putas frágeis a envelhecer), são profundos e necessários golpes de alma da novíssima poesia que ali transpira. Tão diferente, esta forma expressiva de Bentes, do recurso fácil e bacoco com que tantos supostos poetas -- a passar-se por “escritores malditos”-- aparecem a bolsar sinonímia alarve e obscena. Lançam, esses, mão abundante destes bordões estafados, que apenas são, nos seus casos, falsas mostras de “liberdade” do artista que se supõem; expressões paremptósicas de palavreado, já não de letras, inúteis no contexto, desgarradas, a ressumar insinceridade, despropósito, inoportunidade.
Não com Bentes.
É que as ODES, se bem que singulares e de uma originalidade patente, são filhas lídimas da poesia da Beat Generation. Não sei, nem me interessa, se João Bentes leu Gregory Corso, Kerouac, Ginsberg ou Ferlinghetti. Lendo-os ou não, eles estão todos lá, na sua poesia. Há uma linha de darwinismo literário que una a poesia à poesia, e que vem descendo, imemorial, dos aedos aos nossos dias. O Canto a Mim Mesmo de Withman, que perpassou, suavizado pelo renascentismo redivivo e sublimado de Pound nos Cantos, e depois se reacendeu em William Carlos William e depois em Allen Ginsberg, Peter Orloovsky, Gary Snyder e outros, continua, desaguando e mantendo-se corrente de um rio poderoso, nestas ODES. Ler o poema que começa ( pág.20) vim atado à minha mãe com meias voltas no cabeço, é sentir de novo aquele vendaval de força que nos invadia quando líamos, sempre em voz alta, “ I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical, naked,…” de Ginsberg; ou I opened this poem with a yawn thinking how tired I am of revolution de Anne Wldmam; ou, por todos, a Autobiografia de Lawrence Ferlinghetti A vida que levo è muito sossegada, passo os dias no café do Mike….
Correm aqui as memórias de FranK O’Hara na sua Autobiographia Literaria ou de Harold Norse no I Have Seen the Ligth and i ths is My Mind.
Mas há também ali todo o reflexo da grande poesia portuguesa de XIX/XX, da mais triste e da mais contida. Sombras de António Nobre no SÓ, rumores da Clepsidra e do Livro de Cesário Verde, e sempre as grandes Odes de Pessoa, no seu Álvaro de Campos. Ouve-se ali ainda o eco de Ruy Belo, a voz de Natália Correia em algumas das suas composições, sonoridades de Cesariny, ou de Nuno Júdice ao tempo da Crítica Doméstica dos Paralelepípedos e da Noção do Poema,
E depois Bentes consegue mostrar-nos, a cada poema das ODES ,aquilo que constituía a poesia na sua essência e na sua primeva origem: a conjugação dos saberes do mundo, a geografia, a história, a observação da sociedade, o conhecimento pela experiencia da de rerum natura. Experiência que se consegue arduamente; mas como escreveu Porfírio Optaciano, as musas árduas compõem felizes poemas.
Com esta ancestralidade difusa no seu seio, as ODES tinham que ser o que são. Um grande livro. Um livro de desencanto que é ao mesmo tempo de esperança. Um livro de uma nova geração, em contraponto com a geração anterior, gente de regime, acomodada e petulante, embaciada nas suas grandezas tristes e mesquinhas. Creio que foi Bentes quem disse, num poema que lhe li algures ou na Sulscrito em que figurávamos ambos ou em algum blog, e com acertada finura, que “mudam-se os tempos mudam-se as verdades muda-se o poder muda-se a sentença toda a história é feita de mudança trazendo sempre novas iniquidades…”

Portanto, meus amigos, não percam tempo com coisas menores. Deixem-se de tretas. Leiam João Bentes. É do melhor que anda por aí.

E se à geração dos novos poetas, como Bentes, posso permitir-me a sobranceria de presumir um conselho, apenas me ocorre um, deixado por Ezra Pund: “os ricos têm mordomos, mas não têm amigos. Nós temos amigos, e não temos mordomos”.


terça-feira, 29 de abril de 2014

O BALANÇO


Findo o Festival, o balanço. 
Pois bem, em poucas palavras, direi que o Festival Poesia & Companhia foi uma pedrada no charco.
Pretendia-se:
- aproximar o público da poesia e dos poetas Algarvios;
- promover o diálogo entre a poesia e as outras disciplinas artísticas;
- chamar a atenção para a Cidade Velha (revitalização);
- formar, atrair e fidelizar público para as manifestações artísticas locais, promovendo e facilitando a sua intervenção no desenho do evento;
- afirmar a importância da arte;
- aproximar os diversos agentes culturais;
Isso seria alcançado usando-se um contacto muito pessoal e próximo com todos os participantes, num ambiente informal, recriando o que se poderia chamar “ambiente de café. Por outro lado, a sua duração permitira a fidelização de público e a fidelização desse público a um local.
Nesta medida, e correndo o risco de a afirmação não poder ser confirmada, direi que o Festival alcançou os seus objectivos gerais, chamando a atenção para os poetas e para a produção poética local, envolveu o público nas actividades numa simbiose que foi visível, e multiplicou-se pela cidade.
Ficou bem clara a inexistência de uma programação poética e cultural, regular e próxima dos seus destinatários. Ficou bem clara a necessidade dessa programação.
Existem aspectos a melhorar? Sem dúvida! Mas correu muito bem.
Espreitem de novo (ou pela primeira vez) o blog e esta página e perceberão o que estou a dizer.

Ps. O blog vai continuar e algumas actividades estão a ser planeadas. Fiquem atentos.

Luís Nogueira



















CONTINUA...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

2 Poetas gregos

2 Poemas lidos por Adriana Nogueira no Festival Poesia & Companhia


- de Mimnermo, um poeta do séc. VII a.C., em tradução de Frederico Lourenço (publicado pela Cotovia, intitulado Poesia Grega, de Álcman a Teócrito):

(Elogio do Prazer)

O que é a vida? O que é prazer, sem a dourada Afrodite?
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

- de Anacreonte, poeta do séc. VI a.C., li este, traduzido por mim e ainda não publicado:

As minhas fontes já estão grisalhas
e a minha cabeça branca;
A fresca juventude já não está comigo,
Os meus dentes estão velhos
E já não me resta muito
tempo da doce vida ;
Por isso lamento-me com frequência,
receando o Tártaro: pois
as profundezas do Hades
são terríveis, e a descida para lá
é difícil; e também é certo que
quem desce não volta a subir

Poesia: encontre-a na NET

Excesso de informação na Net/Informação Precisosa na Net: Poesia

quarta-feira, 23 de abril de 2014

segunda-feira, 21 de abril de 2014

ENCERRAMENTO/DEBATE

dia 23, a partir das 18:30, na sede da ArQuente terá lugar a cerimónia de encerramento/debate do Festival Poesia & Companhia.

domingo, 20 de abril de 2014

LerAlto

[escritos/lidos no LerAlto]

Há muito mais que um ser
na voz
um devir vibrante
frémito fulgurante que embate nas paredes
e transforma
pelo ar
dúctil canal que intercepta e continua
um será
quando lemos alto

Pedro Afonso


LerAlto

Ler de alto para baixo
Ler lentamente ou bem depressa
Ler para cativar a atenção dos ouvintes ou sussurrar bem baixinho para não se comprometer
Ler com ternura a poesia de uma criança
Ler a língua que se sabe ou a língua que não sabe e o nariz que ajuda
Ler os cheiros e parar para degustar a fruta fresca desta Primavera
Ler recados pela manhã estrategicamente colocados ao lado da cafeteira de café
Ler lábios e parar de ler porque o beijo se embrulhou consoante as vogais
Ler linhas na palma da mão que dá prazer quando toca o sexo
Ler a pauta de música onde figuras cantam ritmos e melodias que querem voar outra vez, imitando a sinfonia de um bando de aves que poisa agora em meus ombros
Ler os teus lagos de lágrimas onde mergulho e respiro embriagado o frémito do desejo
Ler a teoria e dançar a prática
Ler a palavra que falta
Ler a idade numa escarpa oblíqua
Ler a sentença de uma morte anunciada tatuada nas rugas de um Poema que agora Nasceu

Marco Ferraz


Ler Alto

Gostava de ler, e lia, mas lia alto, tão alto que ninguém entendia o que lia. E quando lhe pediam para ler mais baixo, ele lia, mas lia tão baixo que ninguém o ouvia. Nunca deixou de ler, mas nunca alguém percebeu o que dizia. Também nunca perceberam outra coisa, nunca perceberam que ele era analfabeto.

Moral da história: Para fazer algo basta fazê-lo, não é preciso saber como.


Luís Ene

LerAlto - 20/04/2014 - 18.30H - Um lugar para ti



O LerAlto é um evento que se pretende que funcione como mostra, através da leitura, do trabalho dos poetas, mas do qual se espera que seja também uma partilha e um espaço de convívio. Assim, convidam-se os poetas/leitores de poesia a participar lendo os seus poemas e a apresentar-se ao público e que este, a quem também se pede participação, entre em diálogo com eles.

O LerAlto teve início em 2005, acontecendo sempre no bar d’Os Artistas, em Faro e prolongou-se por cerca de dois anos com sessões mensais neste mesmo espaço. Deste evento nasceram vários projectos ligados à poesia e foi criada uma dinâmica importante que deu a conhecer novos autores da região ao público da poesia e possibilitou que vários autores se conhecessem pessoalmente.

Nesta rubrica LerAlto convidamos quem escreve a vir dar a conhecer o seu trabalho e quem gosta de ouvir poesia a vir ouvir e conhecer os poetas. Há também espaço para quem queira ler os seus poemas favoritos, falar deles ou dos seus autores.





terça-feira, 15 de abril de 2014

16, 18,19 e 20 de Abril

16 - 4.ª-feira
21:30 - Tertúlia Algarvia - leitura encenada, de e por Luís Ene - O amor morreu. Viva o amor!


33.

Chovera toda a noite mas a chuva não levara a recordação dela. Ele sentou-se na cama, acendeu a televisão e continuou a chorar em silêncio. Nos próximos dias persistirão os aguaceiros mas poderão acontecer pequenas abertas, afirmou o meteorologista. O homem sentado na cama não deixou de chorar mas um sorriso tímido abriu-se no rosto molhado.
 Luís Ene 
18 - Sexta-feira
18h30 às 20h30 - sede da ArQuente, Faro - À conversa com Isa Catarina Mateus + Leituras encenadas por Patrícia Amaral 



Isa Catarina Mateus nasce em 1974 em Angola. Estuda educação musical e piano 
no Conservatório Regional do Algarve entre 1981 e 1991. Ano em que faz um curso 
breve de organização de Bibliotecas pelo Instituto Português da Juventude. Em 1998 
licencia‐se em Estudos Portugueses pela Universidade do Algarve. Em 2000 conclui a 
pós graduação em História da Arte Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. 
Enquanto estudante, faz rádio e participa em escavações arqueológicas. 
Em 1998 integra a primeira equipa do projeto RADIX da Direção Regional da Cultura do 
Algarve e entre 2010 e 2011 um projeto conjunto da Direção Regional da Cultura do 
Algarve e da Direção Regional da Educação do Algarve.  
Inicia a sua atividade como professora em 1997, como formadora em 2006 e como 
autora  de  materiais  pedagógicos  em  2007.  Colabora  com  a  Direção  Regional  de 
Educação do Algarve no Programa JCE (Juventude/Cinema/Escola) desde 2002 e no 
Projeto VER para LER desde 2008. Atualmente é formadora e autora de materiais no 
Plano Nacional de Cinema.  
Frequenta regularmente formação complementar nas áreas do cinema, da história da 
arte contemporânea e da leitura e escrita. 
Desde 1995 participa ocasionalmente em revistas literárias e culturais e em projetos 
com artistas visuais e plásticos. Tem artigos de investigação publicados em revistas de 

especialidade.

19 - Sábado
16h_17h - sede da ArQuente, Faro - Oficinas de Escrita para crianças, por Sara Monteiro - 8 aos 12 anos




ATENÇÃO - Esta oficina só se realizará se existir um mínimo de 5 crianças inscritas, 10 Euros cada

21h - sede da ArQuente, Faro - Espetáculo spoken word: Chullage



Chullage ou Sr. Preto, é rapper, poeta, dizedor, produtor e técnico de som.
Tem 3 álbuns de rap editados (Rapresálias 2001, Rapensar 2004 e Rapressão 2012) todos com grande repercussão no rap e na musica de intervenção feita em Portugal. Tem várias colaborações com outros artistas, participações em discos e compilações e centenas de apresentações ao vivo.
Desenvolve o projecto de spoken word, Sr. Preto com o qual se junta regularmente a Sr. Castanho (Pedro Castanheira), Pietro Casella, Mick Trovoada, mestre Galissa entre outros, que já correu vários palcos do país.
Tem participado em vários espectáculos e festivais de palavra e spoken de onde destaca “Palavras Andarilhas”, “Tell às Escuras”, “Poetry Slam Margem Sul”, “Clube da Palavra” Canal Q, e “Maré de Contos”. Recentemente assinou uma das latas do Projecto “Musica com Lata” da Conserveira de Lisboa onde participaram vários outros músicos.
Dinamiza os workshops de escrita criativa P.A.L.A.V.R.A (Para Alimentar Letras Atitudes Vozes e Ritmos Activistas) e de Som e Produção Musical com varias escolas e instituições.
Pertence ao colectivo negro de teatro do oprimido KSK - Khapaz di Simia Konsiensia da Associação Khapaz.
Fez musica para a versão de Pedro e o Lobo da companhia Animateatro, 2009; “O Grande Salão” de Martim Pedroso, 2012; co-criou com Tiago Cerqueira a banda sonora e musica original de “Um Sonho de Inverno” de Martim Pedroso, espectáculo que abriu o festival Rotas e Rituais de 2013; co-criou com Flávia Gusmão “O Manifesto” apresentado em Portugal em 2012 (Maria Matos), Brasil e Cabo Verde 2013. Co-criou com Carla Isidoro, para a Gulbenkian, o espectáculo de spoken Word “Palavras na Cidade” que juntou chullage, Vera Cruz, Nastio Mosquito, Kalaf, Biru, Kika Santos, DJ Ride e os Droid (2010);
Fez direcção de som para alguns filmes, de onde se destaca “Salomé” nomeado para o Fantasporto 2014 e Leiria Film Festival 2014.
Através da associação Khapaz desenhou e implementou vários projectos de intervenção comunitária juntamente com outras entidades. Milita com a Plataforma Gueto no combate ao racismo e genocídio dos negros e negras.

Licenciado em Sociologia do Trabalho pelo ISCSP-UTL. Formação profissional nível IV em Som e Produção Musical pela (Restart). Formação em Motion Graphics (Restart). Formação em Edição Criativa de Vídeo (Restart).


20 - Domingo
18h30 - sede da ArQuente, Faro - Ler Alto, sessão de leitura com poetas convidados, aberta à intervenção do público, dinamizado por Pedro Afonso


LerAlto - espaço de partilha e convívio


O LerAlto é um evento que se pretende que funcione como mostra, através da leitura, do trabalho dos poetas, mas do qual se espera que seja também uma partilha e um espaço de convívio. Assim, convidam-se os poetas/leitores de poesia a participar lendo os seus poemas e a apresentar-se ao público e que este, a quem também se pede participação, entre em diálogo com eles.

O LerAlto teve início em 2005, acontecendo sempre no bar d’Os Artistas, em Faro e prolongou-se por cerca de dois anos com sessões mensais neste mesmo espaço. Deste evento nasceram vários projectos ligados à poesia e foi criada uma dinâmica importante que deu a conhecer novos autores da região ao público da poesia e possibilitou que vários autores se conhecessem pessoalmente.

Nesta rubrica LerAlto, que teve lugar a primeira vez no dia 16, pelas 18h30m, no âmbito do Festival Poesia&Companhia, convidamos quem escreve a vir dar a conhecer o seu trabalho e quem gosta de ouvir poesia a vir ouvir e conhecer os poetas. Haverá também espaço para quem queira ler os seus poemas favoritos, falar deles e dos seus autores.

Do dinamizador:


Pedro Afonso nasceu em Faro em 1979 e é onde vive e trabalha. É autor de dois livros de poesia, "ainda aqui este lugar", 4águas, 2008 e "a mesma cantiga de sempre", Lua de Marfim, 2012. Está representado em várias antologias, sendo a mais recente "Algarve – 12 Poetas a Sul do Século XXI", Livros Capital, 2012. Foi um dos fundadores do Sulscrito – Círculo Literário do Algarve e fez parte da direcção da revista literária com o mesmo nome. Fez parte da organização de vários eventos na área da literatura, entre eles o encontro de escritores Palávra Ibérica e o LerAlto.

domingo, 13 de abril de 2014

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa

sexta-feira, 11 de abril de 2014

sorri, se isso te faz feliz

sorri porque o mundo enlouqueceu e tu fazes parte dessa demência; sorri porque acreditas no amanhã e participas da ilusão diária que os telejornais te vendem; sorri porque autorizas narrativas sobre yields de obrigações do tesouro e limiares de 4,5%, como se soubesses o que isso significa; sorri porque admites que políticos de boca cheia te informem de países que se tornaram muito melhores quando a miséria é mais que evidente; sorri porque nem sabes nem te interessas pelo facto de hospitais públicos deixarem de fazer exames de rastreio porque há que obedecer ao cumprimento de metas orçamentais; sorri porque enquanto descansadamente bebes o teu café, há uma mulher que mata a sua própria filha, depois de a mergulhar duas vezes de cabeça num balde, seguindo instruções dadas pelo marido; sorri porque te reitero que o mundo enlouqueceu e que tu fazes parte dessa demência; sorri porque não acreditas na loucura deste poema e estás plenamente convicto que a poesia só pode cheirar a flores, a primavera e ao azul do céu; sorri, se isso te faz feliz; sorri, sorri muito, sorri sempre

Miguel Godinho

quinta-feira, 10 de abril de 2014

11 e 12 de Abril

11- Sexta-feira
18h30 às 20h30 - sede da ArQuente, Faro - À conversa com Luís Nunes Alberto + leituras encenadas por Milai Miu & Teresa da Silva





12 - Sábado


Espaço aberto a partir das 19 Horas - Performance Jardim d'Inverno - Ursula Mestre às 21 horas



Às 22h nos Claustros do Museu Arqueológico de Faro, o "ILHA" no seu contexto poético.
Com a presença de Mauro Amaral (Autor/Co-realizador) & João Bentes (Escritor) e talvez do Pedro Afonso (Escritor). 
A Poesia como esqueleto narrativo-subjetivo deste documentário...





quarta-feira, 9 de abril de 2014

Mais que a morte

Com uma sede maior que a própria sede,
Um gesto maior que as mãos,
Uns pés maiores que os passos,
Um ruído maior que o infinito,
Ela vem dizer-me...

Com um medo maior que o medo,
Um segredo maior que as palavras,
Um amor maior que os corpos,
Uma sina maior que a história do universo,
Ela vem dizer-me...

Com uma ferida maior que o sangue que escorre,
Uma câmara que capta mais que a imagem,
Uns versos que dizem mais que a poesia,
Um frio que me gela mais que o gelo,
Ela vem dizer-me:

Morre, meu amor.
Morre mais que a morte.

Tiago Nené

terça-feira, 8 de abril de 2014

Akua Naru - Poetry: How Does It Feel Now??? (Live Performance) | SoulCul...


Akua Naru - "Poetry, How Does It Feel" OFFICIAL VERSION


mulheres

as mulheres tiram seus panos crus
na hora incerta de uma canção
com os seus passos de fogo nus
no núcleo do grunhido vivo

na hora incerta de uma canção

as mulheres amam as esculturas dos anjos
o palato dos mesmos
bocejando nos seus umbigos e nas suas coxas


as mulheres amam os seus umbigos

as mulheres amam-se nas sombras dos pecadores
amam as praças carregadas de pássaros quentes
amam o vento nas penas dos pássaros quentes

as mulheres amam a vertigem do vento
as mulheres amam a versatilidade do vento
e a boca dos cavalos

Rogério Cão

domingo, 6 de abril de 2014

poema a sul e branco

aqui a sul
saímos da casca dos dias invernengos
caracóis cautelosos
de corpos moles e lentos
depois das chuvas já terem secado
na calidez telúrica do tempo

aqui a sul
a cor do céu espelhada no mar
confunde-se com
a cor do mar espalhada pelo céu
e a salmoura entranha-se nas palavras
e as bocas são banhadas por uma luz
olímpica de sol de verão

as paredes das casas
desmaiam-se de amores por dentro
de suores salgados queimando corpos morenos
gotas de desejo percorrendo nus flancos
desenhando um poema a sul e branco

Alexandre Homem Dual

Abril 4/5/6

4 - Sexta-feira


18h30_20h30 - sede da ArQuente, Faro - À conversa com João Bentes + leituras encenadas por TeAtrito




5 - Sábado
15h - sede da ArQuente, Faro - Oficina de performance (1), por Manuel Almeida Sousa

18h30_20h30 - sede da ArQuente, Faro - À conversa com Paulo Rodrigues Ferreira (escritor e livreiro)


6 - Domingo
16h - Tertúlia Algarvia - Oficina de Poesia e Jazz, por Vítor Reia


18h30_20h30 - sede da ArQuente, Faro - Vídeo performance: "Quem quer ser Português?", por Luis Ene & ArQuente

Noite por ti despida

Adulta é a noite onde cresce 
o teu corpo azul. A claridade 
que se dá em troca dos meus ombros 
cansados. Reflexos 
                                  coloridos. Amei 
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas 
orvalhadas. Não eras tu porém 
o fim dessa estrada 
sem fim. Canto apenas (enquanto os álamos 
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite 
por ti despida. Lume e perfume 
do sol. Íntimo rumor do mundo. 

Casimiro de Brito

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sérgio Godinho - Os Vampiros


A Naifa - Inquietação [2013] (As canções d'A Naifa)


Cai a chuva no portal

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.

Lídia Jorge

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Melancolia

Oh doce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que flutua
De engano em desengano!
   Oh criação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dor que nos oprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
Dum sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
   Oh luz orfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
   Fita-te a gente, estuda,
(Sem medo que se iluda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A órbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
   As vítimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as dessas feras brutas...
E as lástimas, as lutas
Da orfã e do pobre!

João de Deus

terça-feira, 1 de abril de 2014

Agora que morreste

Agora que morreste Mãe
e só em mim te tenho
sou mais que o meu tamanho
porque sou tu também

Tuas mãos afagam minhas mãos
de quem são estes gestos esta pele?
Nunca me deste irmãos
só contigo reparto o meu farnel

de quotidianos fardos e alegrias
breves e desta brasa em chaga
que é tua ausência nos meus dias
órfãos mas sempre ao colo desta mágoa

de não te ter de te ter sido esquiva
de não te ter nunca aberto as portas
do meu ser de nunca te ter dado vivas
o que hoje já só são carícias mortas

Teresa Rita Lopes

OFICINA DE PERFORMANCE

Oficina de performance , por Manuel Almeida Sousa - €20
Sáb. 5 Abril - 15h - sede da ArQuente, Faro - (1)
Sáb. 12 Abril - 15h - sede da ArQuente, Faro - Oficina de performance (2)
Inclui realização de uma performance como exercício final para todos os interessados

*


manuel de almeida e sousa nasceu em cascais no ano de 1947. 
formado pela escola superior de teatro (conservatório nacional de lisboa)
outras formações: - pós graduação em estudos de teatro (faculdade de letras de lisboa)
é formador de professores para a área da expressão dramática (reconhecido pela universidade de braga) 
iniciou a sua actividade como profissional de teatro no ano de 1976 no projecto "anima" - acção de poesia visual portuguesa e posteriormente dedicou-se ao teatro para a infância. 
em 1979 criou o grupo "mandrágora" (associação cultural com acções experimentais na área do teatro e da performance-art) onde encenou e participou como actor/performer na quase totalidade das produções. 
no ano de 1980, entra para a escola secundária passos manuel como professor para as expressões artísticas - oficinas de expressão dramática e teatro educação. nessa escola secundária cria e estrutura o curso profissional de formação de actores (nível secundário).
manuel de almeida e sousa tem ainda desenvolvido projectos na área das artes gráficas, performance art, mail art, poesia experimental e outras acções no campo das artes performativas.
está representado em projectos da dita "vanguarda estética" em espanha, frança, itália, polónia e bélgica.


recentemente, os seus projectos dramáticos, foram editados no brasil - livro com 5 peças teatrais de sua autoria.

***
A OFICINA

propõe o “jogo” como meio para o atingir o acto em processo e progresso chave: - MEMÓRIA ---> a do quotidiano > a do movimento > a do ritmo > a dos objectos
DESTINADA A TODOS
IDADE SUPERIOR A 16 Anos


DA PERFORMANCE-ARTE

As correntes estéticas que irrompem no século XX, todas elas, propõem uma interligação das diferentes “disciplinas”
artísticas.
A performance-arte é uma das acções estéticas que explora esse “ligar”, ou um “religar” (não ler como "re-ligare" - religião). Ou talvez… também sim, porque não?... Uma vez que o “drama” nasce precisamente do
ritmo, do movimento do corpo. E, o corpo é aqui - na performance-arte - o objecto estético em processo...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Manuel Alegre :: Estou triste / Dito por Mário Viegas (+lista de reprodu...


Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

domingo, 30 de março de 2014

Mário Viegas diz Jorge de Sena "*Carta a meus filhos..." do disco "Prete...


Lembrança da Ria de Faro

Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caiada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia

Gastão Cruz

sábado, 29 de março de 2014

Mais um poema

Verões virão E verões virão ainda de pés descalços de apanhar pedras na praia de cheirar a cor do mar de usar tão curta a saia. E verões virão ainda de subir rochas usar no pé uma sandália cantar canções fazer rodar a saia. E virão verões assim ainda. E verões virão ainda de nadar umas braçadas beber taças de mojitos comer camarão picante deixar cair a saia. E verões virão em que o mar se aquietará e nem pés nus nem nas sandálias. A conta gotas onde é que estou para onde fui o que é que eu fiz às minhas saias.

Sara Monteiro


sexta-feira, 28 de março de 2014

Luar de Agosto

Luar de Agosto, o céu em lua cheia!
Na mole intumescência o mar cantando,
Parece estar uma oração rezando...
E, por cenário, o fundo duma aldeia...

Insisto: Algarve em festa; bruxuleia
A luz da lua, tudo prateando
Num milagre de luz, que vai mostrando
Festa que lembra uma Panateneia...

Há saudades de amor e de verbenas...
Trilam as rãs, desfolham-se açucenas,
À luz mortiça do luar dorido...

E é Faro a Sulamitis descansada
No regaço da noite, desmaiada,
Sem os astros a terem pressentido!

Vítor Castella

quinta-feira, 27 de março de 2014

Vila do Bispo

Os poetas doentes de palavras
habitam litorais enevoados
percorrem praias de calhaus
ao sabor de ventos e marés.
Haverá sempre uma duna
que lhes desperte um sentimento
água límpida, poentes
lágrimas de deuses cinzentos.

Inútil a solidão
da casa da falésia
dos pinheiros na colina
da vegetação ardida
e de novo renascida
pela inevitável passagem das estações.

Melhor a perfeição do casario
a simplicidade da praça
as ruas rectilíneas e desertas
deste sul com sabor atlântico
e restos de navios.

António Ventura